cadeira cardume de plástico

•14/04/2014 • Deixe um comentário

este não é meu mundo
mas estou nesse mundo
este pedaço de espaço não é meu
mas estou nesse pedaço de espaço
pois nada me pertence
de uma vez só
e nenhuma outra parte será minha
se eu ainda existir
esta casa não é minha
e ainda estou aqui
dentro de paredes brancas
que me contorcem numa mesa de vidro
estarrecido na frente de uma tela plana e fina
esta mesa não é minha
e ainda sento numa cadeira
fabricada com algum material que não sei nomear
uma cadeira fabricada de mundo
este mundo que não é só meu
de uma vez só
e nenhuma outra cadeira será minha
se eu ainda pintar as paredes
estas toalhas estes assentos
estes acentos
estas tralhas estas flores
nesta garrafa
esses dias essas vozes
os ventos que sopram sossegados
os ventos escandalosos
nada disso será meu
nada disso é meu de verdade
pois nada me é e nada me tem
e eu estou
eu estou neste canto
neste centro
neste centro que não existe
nesta ideia desconcertante de centro
eu estou
neste mundo que não é meu
nem as luzes que nele chegam
nem os poros da pele
nem os supostos suores
nem as estantes de madeira
pois o dia corre
como rio que não dá ré
estes abismos
não são meus
mas estou compelido
a estar
e estando estou solto
de um modo roto
e de outro modo vago
sem ser somente véu
que cobre o cada de cada dia
fazendo soar igual
aquilo que é diferente
pois eu não estou sóbrio
e não quero ter um dente
que não seja aquele que me resta
como sobra numa boca de trinta e três
esta língua
dos vasos sanguíneos
outro músculo aberto
estas carnes não são minhas
estas ideias não são minhas
estas costas não são
estes laços estes braços
nem estas toalhas que cobrem cabelos
nem as luvas de borracha
nem as unhas pintadas
nem esta boca de batom
nada disso é meu
mas estou compelido a estar
e estando estou solto
de um modo rígido
e de outro aberto
nesses dias que estão
nesses dias que me estão
neste mundo que me está
e estando estou só
rodeado de outros sóis
que irradiam seus feixes de luz
divergentes
este não é meu mundo
e algumas velas se apagam
irradiando um tanto de suas luzes
como as estrelas que já se foram
mas que continuam brilhando
pois a distância faz recordar
aquilo que já morreu
e irradiam uma luz
que já não é mais sua
e porque nunca fora só dela
estes dias não são nossos
mas estão nossos só um pouco
mesmo que de modo vago e solto
ainda brusco
para que possam continuar vivendo
enquanto feixes continuam banhando
este mundo que não é nosso

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teleférico

•24/03/2014 • Deixe um comentário

telégrafos cartas veias relâmpagos da palavra
que emudece umidifica línguas aranhas
capilarmente para o centro
sem apertar qualquer botão
um olho e outro olho num tilintar
de relâmpagos azuis da noite
das palavras que não podem ver uma memória
e medem medos maltratam mantos
descansam em pátios nos fundos de uma casa velha
e eletromagnetizam orelhas
cardápios amígdalas horóscopos de meio-dia
palavra vaga na incerteza do depois
antecedências falseadas um dois três
impaciência no relâmpago ácido
calejado em francês português espanhol
puberdade tardia que derrama ou range
num trovão entrópico
um olho e outro olho a tilintar
como um prato em garfos
então pobrezinho
draga um tanto de água
dentro de um poço de pérolas espargidas
descontinuidade teorética
consonantes cólicas evasivas
esconde-se em batalhas e barcos de pele
num pouco de pedra e num tanto de ferrolhos
dos telégrafos cartas e voadores discos
que não apenas dirigem o elevador para o chão
e então pobrezinho
continua a tilintar numa brecha
e continua a soprar sílabas soltas
lâmpadas acesas não resolvem verticais
e mesmo assim coagulam medos alérgicos
acoplagem eletrotônica

assoprar balões

•15/03/2014 • Deixe um comentário

todo mundo tem um olho pra enxugar, quase todo mundo tem dois olhos pra enxugar, todo mundo tem um fio de pelo pra lavar, todo mundo tem cadernos pra rabiscar, menos nós.
todo mundo tem degraus pra pisar, todo mundo tem linhas brancas nas cabeças, todo mundo tem veias que saltam das cabeças, menos nós.
todo mundo já escovou os dentes pela manhã, todo mundo já bebeu café mais de uma vez ao dia, todo mundo entoou qualquer coisa dessas, menos nós.
todo mundo quis ser celebridade, todo mundo quis arrebentar balões de festa, todo mundo cozinhou um ovo, menos eles.
todo mundo já foi embora, todo mundo já fechou as janelas, todo mundo já virou a página, menos eu.
todo mundo já rabiscou e tentou apagar, todo mundo já ouviu qualquer tom diferente, menos eu…
e depois de tantos dias e tantos lençóis revirados, menos eu, e depois de tantos arbustos decepados, e depois de tantos ventos desassoprados, menos eu, e depois de lentes em lutas vencidas, e depois de todos os episódios, menos eu. menos eu. menos eu, congelando nessas vozes que fritam. menos eu.
vinte vezes menos nós. vinte vezes menos eu. lembro do capim seco, do quadrado estofado, do latido do cão, dos cogumelos, das casas alvoraçadas, dos dias óbvios.
todo mundo já foi óbvio demais, inclusive nós. mesmo assim…
em domingos tornando-se segundas, em latas abertas, quanto tempo restou, ainda resta e vai restar. tem um tempo em que nuvens aliviam trovões, e em outros dias nublados estou apenas de lado, olhando através da porta o dia que se afasta do hoje, o dia que se aproxima do ontem, como se tantos tempos pudessem se cruzar num único limiar de porta.
limiar de porta.
pra se fazer ouvido. todo mundo já tem tempo de esgotar joelhos em caminhadas longas. por merecimento através do que se sofre, eles podem ter um prêmio. e por quê? como em perfeição que não existe, como em chatice sobre qualquer conversa sobre perfeição, as coisas se ultrapassam sem qualquer comprometimento com consagrações históricas. qualquer um está amando, qualquer um está pensando em qualquer outra coisa. as estrelas velhas querem explodir pra desaparecer, e continuam jogando qualquer jogo de combustão. até definhar. até irromper pra dentro.

O bolo

•13/03/2014 • Deixe um comentário

Eu fiz o bolo, minha mãe fez o bolo, todos nós fizemos um bolo.
Fizemos o bolo, ela fez o bolo, os dias se fizeram em bolos. Seis. No sétimo, o doceiro descansou. A doceira também. E a doceria fechou.
Eles fizeram o bolo. E fizeram, também, a cobertura. Eles estavam com medo de dar errado, mas o bolo ficou bonito. Eles fizeram um bolo bonito. Não sei se ficou gostoso. Não o comi e nem o comeria, pois foi feito por eles. Eu nunca comeria um bolo feito por eles. Eles não sabem misturar bem, apesar de ter ficado um bolo bonito. Bolo bonito, como já dizia o ditado, tanto bate até que fura.
Meu pai fez o bolo, todos os irmãos e parentes fizeram o bolo. Ninguém comeu o bolo porque a festa terminou antes de começar. Por isso ninguém comeu o bolo. O bolo foi feito pra ser deixado pra depois, mesmo que depois nada tenha sido feito efetivamente. O bolo foi feito pra ser apreciado, por isso precisou de muito tempo pra ficar bonito, com voltas de glacês e frutas vermelhas decorando seus picos vistosos de deslumbramento doce.
Minha bisavó, que não tenho mais, fez o bolo. Ela corta devagar cada pedaço do bolo e come, porque já pode comê-lo sem culpa de estragar qualquer pico vistoso de deslumbramento doce. Minha bisavó come cada pedaço como se fosse o primeiro e o último, sem nada no meio. No meio do bolo, mais bolo. Bolo que meu amigo fez, que minha amiga fez, que meus minutos fizeram. Meus pais fizeram o bolo, eu fiz o bolo, todos fizemos em algum momento, e continuamos fazendo, com vontade de fazer um próximo sem ter terminado este. Eu faço outro bolo como quem come bolo depressa. Meu namorado fez o bolo, minha namorada fez o bolo, meus amantes fizeram o bolo, meu marido continua fazendo o bolo. Continuamos embolando dia após dia, esses bolos todos que costumamos fazer.
Minha mãe fez o bolo. Não descansamos nem no sétimo dia. As portas estão abertas o tempo todo. As portas abertas e o bolo sobre a mesa. E o bolo na cadeira. E o bolo dentro da geladeira. Este bolo continua sobrevoando. Este bolo orbita. Este bolo, dentro do planeta. O bolo é um lugar pra todos nós.

cabeça ombro joelho e pé

•03/02/2014 • Deixe um comentário

Talvez esses mundos não sejam medidos pelas quantidades de linhas e folhas. Há caixinhas incertas que nos dizem que temos manhãs tranquilas e espaços de sentido que nos fazem crer que podemos tocar qualquer parte do outro com apenas um ar compelido de esperteza e afeto. Entretanto, há coisas das quais não compartilhamos, e dessas coisas que não compartilhamos, consideramos que está quase tudo errado, como num desastre insistente. Deveríamos agir como pessoas que as pessoas não têm, mas temos agido como pessoas que as pessoas querem ter, e isso não se ajusta tão bem ao que pensamos um dia sobre uma aproximação do ideal de estar em relação. Tem alguma coisa na minha cabeça, nas nossas cabeças, que não dorme. Algo como um pedaço de coisa preguiçosa que não quer deixar de hibernar mesmo não dormindo, algo que serpenteia como uma cobra e faz revelar situações estranhas logo cedo, quando as manhãs tranquilas despontam como impossibilidades. Mais tarde, caminhamos pra casa de mãos dadas, tentando tocar qualquer parte do outro que não conseguimos. Ainda soa difícil e um tanto montanhoso tentar pular para o meio de uma multidão cercada de calçadas e campos de força que eletrificam quase sempre. Cada um comete suas próprias faltas e somas, flutuando nas ondas dos dias, escondendo grampos e tesouras e bastões de cola na espuma dos banhos, nos cadarços imundos, nos pelos crescidos, nos cotovelos doídos, nas curvas de gordura, na porosidade da pele. Você grita, ela grita, ele grita, eu grito, nós gritamos como pessoas desavisadas num desvario de desordem populacional. Há tantos estancamentos e tantos soldados impróprios, tantas armas e tantos braços desperdiçados. Mas, sim, encontramos estes ombros, aqueles outros, e colocamos um pouco de peso sobre eles. Apoiamo-nos de repente, tentando dosar qualquer peso pra não deixar fugir e pra não pesar demais até parar. Precisamos fazer cálculos, precisamos calibrar nos desgastes, precisamos saber quantos verões poderemos enfrentar, precisamos inventar qualquer futuro, antecipar o próximo segundo, e mesmo assim tanta coisa escapa, escapa, escapa. E ainda podemos contar com quaisquer outros ombros. Precisamos, do mesmo modo, disponibilizarmo-nos. Inclinamo-nos em cada esquina, dobramos cada curva, buscamos quaisquer sorrisos. Não estamos loucos. Nós precisamos viver. Nós precisamos daquele calor. Precisamos daquele vento, precisamos desse colo, desses beijos e dos cabelos que nos cobrem quando queremos nos esconder só um pouco. Não estamos loucos! E mesmo assim há um tanto de insanidade em acreditar nas meninas e nos meninos do dia após dia, nos ares e sucções, em pessoas brincando e compartilhando suas escolhas. Conveniências. Qualquer dia pode ser melhor, qualquer dia não precisa ser melhor, qualquer dia vem depois do outro, somos loucos e não estamos loucos. Precisamos de um pouco mais de loucura, só um pouco, e sentir que podemos tocar a outra parte que não nos toca mais. Eu não quero fugir, não queremos nos esconder. As diferenças que nos reconfiguram, dessas precisamos nos atentar, que sejamos diferentes nas diferenças de nossos ombros. Ombros meio amargos, meio doces, um tanto tontos, outro tanto estáveis, escorregadios, cardíacos, pulmonares, ventilados. Queremos ombros, precisamos ombros, sejamos ombros, toquemos olhos, busquemos bocas, abracemos ouvidos, sintamos roxos, estampidos loucos, calores altos, braços amplos, vozes e cantos, amores e mundos, árvores e galhos nas raízes moventes dos dias não apenas nossos.

Depois do que fui, depois do que sou

•27/01/2014 • Deixe um comentário

As vagas e corriqueiras impressões de que o tempo passa, essas impressões ficam com formas cada vez mais nítidas, e tanta coisa pode ser contada em dedos e tantas outras que eu perco a conta… Foram dias e meses atípicos. Mas onde está a tipicidade quando se decide viver vivendo, mesmo querendo antecipar coisas e mesmo querendo prever futuros? Onde está a tipicidade quando o que conta são os desvios sofridos/provocados que levam a cantos e dobras antes impensáveis? Sim, mesmo assim, meses atípicos, numa espiral de atipicidades que fazem mover pequenas placas tectônicas. Essa deriva continental, essa deriva insular, se assim pudesse eu descrever, são inconstâncias e irreversibilidades que redesenham vontades, ardências, sonhos, movimentos que tendem à transformação de um sempre que não se define, de um hoje que não se congela, de um antes não arquivado, de um antes que pulsa na emergência do hoje, de um hoje que projeta as incertezas de um depois.
Depois do que fui e depois do que sou exatamente agora, todas essas coisas não envelopadas e não solapadas por qualquer marca indelével, descrevem e desenham quaisquer esboços em cores. Essa indelebilidade é débil, e eu não a quero. Porque não há coisa que possa ser mantida cristalizada no tempo. Eu quero a debilidade do deleite, eu quero a incongruência do que se pode inflar e desinflar, mesmo não morrendo, eu quero essa potência de vida que faz e refaz esses depois. Depois de agora, outra coisa que não essa, e mesmo assim ainda como se fosse antes, porque podemos nos reconhecer mesmo sem essas raízes, raízes, raízes, que insanas essas raízes!
Quando as coisas parecem tender à catástrofe, eu titubeio, engasgo, escrevo estranho, penso ao contrário, corro devagar, lambo cotovelos, mesmo não podendo. E é como se tudo pedisse um pouco mais de solicitude. Eu presto atenção nesses dias, eu olho pra trás mesmo esquecendo tanta coisa, e costuro qualquer pedaço de memória noutra memória, invento coisas e falseio qualquer ânsia. Mesmo assim, eu não me engano, até quando achar que devo ou posso. Depois do que sou, continuo sendo, não somente esse sendo, mas sendo a outra coisa que não seria se não fosse desse jeito, agora, como está, e logo mais, outro antes reinterpretado na potência do hoje. Eu me misturo, nos misturamos na irreversibilidade do tempo e na possibilidade das lembranças que nos mantêm – mas não nos conservam estanques – na duração da vida.
O tempo, sempre ele, em letras minúsculas, em letras garrafais, em sons, em toques apenas. O tempo, nós dois, todos nós, no tempo do que se pode viver. Dessas possibilidades, dos nossos acontecimentos, dos vinte e cinco anos, das pequenas lembranças, as vidas que já fomos, tempo, as vidas que seremos, dentro dessa vida, sempre transformando… Depois do que fui, depois do que sou, depois do que somos, depois do que seremos.

montanhas

•18/01/2014 • Deixe um comentário

de outro lugar
de estar em outro lugar
de ocupar outro espaço
como peça que se desloca
e é substituída
por outra peça
assim como numa foto
em que se recorta uma cabeça
e se cola outra
e fica tudo como parecia sempre ser
e fica como se fosse o mesmo
um mesmo substituto
um mesmo diferente
e ainda assim o mesmo
mesmo sabendo que não se pode ser o mesmo

andando por ruas avessas
sextas e noites em toldos de preservação
tem um tempo em que se muda
e outro em que se fica suspenso
como se nada pudesse mudar
ainda assim um substituto
para coisas que se idealizam
e fazem parar e fazem parar
qualquer pé e pé e pé e pé

feitos pra durar
feitos pra morrer
feitos pra ficar de algum jeito
feitos pra nada
feitos apenas
feitos porque apenas feitos

parte da vida
parte das coisas que emergem
parte das coisas que se afundam

fora das linhas
fora do centro da cidade
fora das gravações
fora das lembranças
fora de sanidades
fora dos jardins
fora das bocas
fora das cartas
fora dos cadernos tortos
fora dessas esquinas

substituto para o abraço é um casaco
falseado
substituto para um beijo é um doce
mentiroso
substituto para outro substituto é um substituto
trapassa

deste lugar
como que desconfortável
como uma sombra
como projetando uma sombra que não se tem
como uma sombra de outro

outro lugar e não esse
e ainda não se está pronto
quando sobe as escadas
e procura qualquer fogo e fósforo
ainda não se lembra do fim
e dos anos brasileiros
dos anos rotineiros
dos anos em vídeos
dos anos em fotos

mesmo tendo tempo
nesse mundo cabe muito
e um miúdo de tempo em linha torta
porque deus não sabe escrever
sílaba sequer
e esqueceu de comprar borracha
pras linhas marcadas sem querer
porque deus é qualquer coisa
que se ama fora
pra jogar amor fora
e ter medo de amar dentro
e ter medo de amar o outro lado
e ter medo de olhar outros lados
deus é minha desculpa
pra ser o que não quero

do outro lado
mesmo perto
esses paradoxos imaginários
essas montanhas russas argelinas vietnamitas chilenas portuguesas americanas
essas montanhas islandesas
essas ausências montanhosas
todos os discos voadores foscos e soteropolitanos
e escandinavos burgueses eslavos
do outro lado
mesmo perto
esses paradoxos imaginários

não são bons pra mim
estou alto estou alto
vou pro centro da cidade
açúcar açúcar açúcar
todo mundo sabe
então beije beije beije
estes ombros ombros ombros

isso é mais legal que pontas de faca
sobre círculo de cera
isso é mais legal que um banco de areia
sob placas de papelão
em descida acelerada
para dentro de uma água salgada
geograficamente impossível

como peça que se desloca
e é substituída
por outra peça
assim como numa foto
em que se recorta uma cabeça
e se cola outra

montanhas ausentes
montanhas altas
montanhas estratégicas
montanhas despretendidas