Ser veloz é um estado líquido que percorre vias pequenas num mapa altamente denso. Ser veloz exige a capacidade de encontrar vias desconhecidas. Não é possível ser veloz do jeito que se está. A matéria é pesada. Nada a ultrapassa. Não existe jeito de ultrapassar a matéria. Por isso, só encontrando vias paralelas, vias desconhecidas, para que o líquido possa percorrer numa outra velocidade.
O mapa altamente denso mente sobre o desespero da matéria. A matéria pede pra ser mais sutil, mais leve e menos palpável. Mas ela não consegue ser, ela não consegue deixar de ser dura, porque esta é a sua natureza primitiva. A matéria não consegue se dissociar da sua primitividade. Antes ela precisa de outra coisa. Ela precisa ser. A matéria não é sagrada, pois não existe o sacro e o santo e o profano. Nada está dividido. Mas a matéria continua dividindo-se no seu jeito mais primitivo de ser. É da sua primitividade que ela precisa se desfazer. As raízes não importam, os galhos não importam. Não importam raízes nem galhos nem folhas. A matéria precisa de outros tipos de terra. A primitividade não desaparece nas raízes que continuam se afundando cada vez mais. É preciso deixar podar para poder crescer.
A matéria está para o vento assim como páginas brancas estão para um pedaço de lápis com ponta desgastada. Há um jeito, mas para deixar acontecer é preciso entender e ser um pouco da ancestralidade. Tudo é um começo pra quem pensa que histórias nunca se repetem.
Lâmpadas acesas
•21/05/2012 • Deixe um comentárioChove na Trindade
•19/05/2012 • 1 ComentárioChove na Trindade, no pai, no filho e na mãe. Chove na Trindade como não chove em nenhum outro local. A chuva que cai na Trindade também cai no pai, no filho e na mãe. Os três, molhados, os três agora molhados, debaixo de um ponto de ônibus, esperam a chuva passar. “Por que começou a chover na Trindade justamente agora?”, pensa o filho, ao lado do pai, abraçando a mãe, enquanto um carro passa. Mas a chuva não. Ela não passa.
Na Trindade tudo é chuva. Inclusive os sapatos da mãe. Neles a chuva é de verdade. Como é de verdade a chuva naqueles sapatos. Os três não sabem o que fazer enquanto a chuva cai, apesar de estarem completamente encharcados. É que compraram pão, e o pão ainda está seco, debaixo da camisa do pai, um pedaço dele na boca do filho. Em que lugar se escondeu o espírito santo nesta noite da Trindade?
Chove na Trindade como pedaços de fios de cabelo que caem do filho. Pequenos pedaços do filho, no chão, escorrendo direto para a boca de um lobo metaforizado. Naquele canto onde tudo embola, só faltavam os fios do cabelo do filho pra entupir o escoamento. A rua começa a alagar na Trindade que chove. Os três, sobre o banco, veem a água passar rápida sob seus pés, enquanto esperam a chuva passar. Mas não passa.
Na Trindade, a chuva aumenta. O pão já está molhado, o filho chora. A mãe, com raiva, joga os sapatos fora. O pai tira a camisa e coloca na cabeça da mãe. O filho olha para os dois de verdade, com medo. O pai não sabe o que fazer, é escuro. A mãe esconde seus olhos para que o filho não veja seu desespero. O pão escorrega da mão do pai. O filho chora pelo pão molhado, ainda com um pouco de fome. A mãe procura com os olhos, sem sucesso e arrependida, seus sapatos no meio da água que passa. Os sapatos estão longe. O filho sabe que a mãe procura alguma coisa, pensa que é um corpo e começa a chorar. A mãe tenta acalmar o filho, enquanto ele se desespera ainda mais por ver a água subir. O pai diz que precisam caminhar dentro da água mesmo antes que o nível suba. O pão bóia cada vez mais longe. Numa esquina fria, sapatos e pão encontram-se. Um fio de cabelo do filho cai, flutuando, leve, depois pesado, aumentando o peso do mundo. E o pai limpa os olhos depois de um galho ter ofuscado sua visão.
Pára de chover na Trindade. Pai, filho e mãe estão bem. Os três, marrons de sujeira até os joelhos, encontram os sapatos da mãe com um pedaço de pão dentro. O filho pergunta se pode come-lo. O pai, obviamente, responde que não. A mãe coloca os sapatos, enquanto o pai coloca o filho no chão. É escuro na Trindade. É escuro para o pai, o filho e a mãe. Não há poste de luz nem espírito santo que o valha. Num morro que agora mais parece uma cachoeira, estão os três, de mãos dadas, tateando o chão com os pés na direção de uma pequena casa de madeira que pende lá em cima. A noite será fria, sem pão, sem luz, molhada. Depois que choveu na Trindade.
O bruto não está de luto
•16/05/2012 • Deixe um comentárioAssistimos, recentemente, uma brutalidade. Presenciamos estranhezas e abrimos os olhos pro que pode acontecer bem aqui do lado, do lado mesmo. Uma cena que se repete, hora após hora, localidade após localidade, onde facas pequenas espremem vidas pra marginalidade, onde facas pequenas espremem vidas pra fora de qualquer visibilidade. Essa brutalidade, depois transformada em capítulo de audiência televisiva, é mais um número no “saldo” de brutalidades, lista que cresce, lista que continua crescendo, impunidades que continuam se multiplicando… Pequenas vidas vão se apagando, na marginalidade de um barracão, num canto silencioso que só aparece quando a brutalidade ameaça. Quando tempo ainda dura, quanto tempo ainda existe, lá fora, sem nuvem e sem sol, sem lençol branco sequer. Lençóis ameaçados por uma sujeira viscosa, pegajosa e avermelhada. Um medo que vem aqui e ali, que se propaga, que encolhe peles e ossos, que alimenta couraças.
Eu não quero acordar de novo e ver um cartaz em letras garrafais. Eu não quero caminhar por trinta segundos e ver os portões fechados e apenas uma brecha por onde passam corpos cansados. Pra depois ficar olhando, pra depois ficar chorando e pensando qualquer coisa, enquanto mais um capítulo se transforma em novela, onde mentiras são aumentadas e verdades colocadas de lado. Que mentiras e que verdades? Perto de limites, perto de colocar pontos certos, perto de saber o que acontece, em carne e osso. Não quero acordar e perceber que o morro está mais leve de peso e mais pesado de leviandade.
Aqui, na palma da mão, uma linha e outra linha e outra linha que desenham o desenho da minha carne. Na rua, uma linha e outra linha que segregam o desenho da contiguidade. Comigo e contigo, contíguos que se desfazem num contexto abissal.
Veleidade vem de vela que não se apaga
•16/05/2012 • Deixe um comentárioVeleidades, quantas, dentro de um cerceamento qualquer
Depois extravasadas, vazando aos poucos
Num limite incalculável
Aqui, ainda, veleidades primeiras
Que se desfazem num círculo que vicia
Pra depois voltar, enchendo devagarinho
Tudo silencia e tudo mata
Tudo come um pouco do que sobra
E então volta pro mesmo
Veleidades, muitas, dentro de tubos de conserva
Diretores e protetores num saco de plástico
Pra poder espremer veleidades outras pra fora do rolo
Ainda assim, vilão, veleidade que não se mexe
No três, nós três
•14/05/2012 • Deixe um comentárioPensei em desenhar qualquer linha torta, pra depois saber desenhar melhor e dizer que consigo desenhar melhor do que antes. Aqui, dançando com antenas viradas pra baixo, procurando um espaço, dormindo aos poucos, desenho outras linhas tortas que eu não vejo. Como diz a música, “tão doce quanto amargo”.
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Ele está tocando peças suaves de vestuário fino. Peças finas de seda, peças quase invisíveis de tão finas. Ele coloca cada uma no seu corpo e depois sai pra ser fotografado. É fotografado constantemente por câmeras e flashes que estouram na quase invisibilidade da sua roupa. A peça fina quase desaparece, quase é engolida pela câmera majestosamente montada para aquela ocasião. Os locais não olham, não sabem, não conhecem aquela figura. Ele se abana na rua, com sua roupa de seda, fina, desfilando vagarosamente, olhando pros lados e ao mesmo tempo fingindo não olhar, apenas pra ser notado. Depois espalha suas fotos, calculadamente. E então de forma arbitrária. A aleatoriedade da sua busca é estranha. Ele tenta para todos os lados. Sabe que a roupa de seda é fina e quase invisível e sabe que atrai. Atrai o quê? Atrai pra quê?
Então ele sai girando como uma criança que aprende a engatinhar e depois cai. Gira e gira em torno do mesmo quadrado até se deparar com a ponta da roupa de seda que ficou pra trás. Que está na sua frente. As fotos passam a desbotar. Seus olhos continuam os mesmos. Lampejos de flashes, lembranças que não se apagam e ele continua desfilando com uma roupa puída de seda fina, quase invisível de tão usada, de tão gasta, de tão horrível. De um horror que salta aos olhos.
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cavar cava cava
um buraco cava ali
cava com cuidado cava
cava com vagar cava aqui
cava cavando devagar cava lá
cava como quem quer cavar
devagar até cavar de novo aqui
cava buraco cava cavar
acotovelando covas pra depois cavar melhor
pra cavar melhor em todo lugar
cava um buraco grande
cava um buraco maior
cava cava cava
pra cavar depressa
pra cavar devagar
até não ter mais o que cavar
até não ter mãos
cava onde cava aonde
cava cavei cavou um cravo
cavaste cada calo
cadê
cava cavando devagar
pra sentir que cava de verdade
cava um buraco
cava um buraco em mim
e planta assim
uma planta que cava mais um pouco pra dentro
até cavar de verdade
a raiz que cava mais um pouco
cava em mim cava em ti
cavaste cavamos cavais
cadê
cavando cadê o lugar
cavar devagar
de vagar
depressa de pressa devagar cava
aqui ali lá em mim em ti em nós
pra sempre
Dança, coisa, novo, velho
•26/04/2012 • 1 ComentárioA figuratividade de um movimento de dança não é, na medida exata, uma tentativa de explicar alguma coisa. Dos passos codificados para a novidade do que está chegando, a potencialidade da dança parece ser mensurável entre aquilo que já existe e aquilo que ainda não chegou, e o que ainda não chegou parece possuir maior grau de disparo criativo do que aquilo que ainda está. Como articular o frescor do que é novo com o que já existe? A articulação, neste contexto, envolve um processo sensório-motor consciencioso, onde as etapas já repetidas devem ser analisadas sob um prisma de invariabilidade que se renova. É possível renovar uma invariabilidade sem que ela perca sua natureza que é invariável? Vale dizer que uma repetição nunca é ela mesma novamente. Aquilo que é repetido, é feito de modo diferente. Porém, a repetição envolve similaridades intensamente visíveis, e é nesta repetição visivelmente intensa que a invariabilidade precisa se renovar, num sentido de que o frescor daquilo que é sempre novo deve coabitar o universo daquilo que é invariavelmente e aparentemente sempre o mesmo.
Notas de onde
•22/04/2012 • Deixe um comentárioPara além de qualquer espaço vazio, para além de qualquer concepção de espaço vazio, para além de qualquer coisa que possa parecer um espaço vazio, contratos são realizados regularmente sobre coisas visíveis. E o visível é espacial. Contratos de papéis passados, contratos verbais, contratos gestuais, contratos mudos e cegos. Contratos duradouros e contratos temporários. Para além de qualquer durabilidade, canetas assinam, cabeças abanam, silêncios explicam. Depois de qualquer contrato, depois de qualquer temporalidade, as prestações. Explicam-se os gastos, explicam-se as demoras. E os grandes terremotos.
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Lá longe aonde não tem leite fresco, as pessoas cozinham com o que sobrou da segunda-feira. A segunda-feira transformou-se no dia da repetição e da contenção. Consequentemente, os outros dias também foram se repetindo, em conformidade com uma segunda que sempre se repetia. Foi como cair num círculo vicioso. Círculos que viciam, vícios que são difíceis de largar. O vício passou a ser o cotidiano, o cotidiano passou a ser confortável, o confortável tornou-se um fim. Quem inventou a finalidade?
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People around you. Creative things under a table, nowhere. Here’s a landscape of you, retracing clouds in “mywhere”. Can it be possible replace them? Lay down, simpler cause. Just into space, craving labels and surrendering yellow notes: just to be nowhere. Here is nobody, fishing papers of green news. Granting. Cowering. Lay down, simpler note. Lay down.
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Parcas avestruzes cruzam campos perenes de água azeda. Ao zarpar da zebra sobre a perenidade do avestruz, as pernas se juntam em homenagem ao compêndio realizado entre vezes que se resumem e vasos que não se partem. Quando bebe água azeda, a zebra remói sem pensar e o avestruz coça o nariz com a ponta de um anzol.
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Eles estão calados porque se calaram. Calaram-se porque não queriam mais falar. Não queriam mais falar porque era somente isso o que queriam naquele instante. Mas depois de tanto tempo, as línguas começaram a se enrolar estranhamente, como em definhamento enclausurado. Pra quem não quer usar, atrofia qualquer parte. Atrofia tudo. Atrofia a ponta do cabelo que não mais quis se partir em pontas duplas. E atrofia a unha do dedo mindinho que não mais raspou no chão. É preciso machucar pra não atrofiar, é preciso raspar de vez em quando e esperar que tudo se ajeite. Atrofiar, armar, voar, esperar. Jogar fora. Vamos embora…
